Escrevo como torcedor. Escrevo como alguém que conhece o futebol e as arquibancadas do Arruda por dentro. Como quem esteve no cimento, nas cadeiras, na tribuna de imprensa e nas redações, tanto nas derrotas quanto nas alegrias e reconstruções.
Escrevo, acima de tudo, como parte desse povo que sempre sustentou financeira, emocional e historicamente o Santa Cruz.
Vamos contextualizar: os números de 2025 não mentem. Mesmo disputando a última divisão do futebol brasileiro, fomos o 11º colocado no ranking nacional de média de público. Foram 473.288 torcedores corais em 19 jogos, média de 24.910 por partida. Superamos equipes da Série A como Vasco, Grêmio, Atlético-MG, Santos e Botafogo. Não vou nem citar o rival local, porque foi uma campanha tão pífia que não vale a pena.
Na final da Série D, na Arena de Pernambuco, 45.500 tricolores quebraram o recorde de público. A arrecadação foi de R$ 14,78 milhões em bilheteria, com média de R$ 778 mil por jogo. A maior renda da história do clube veio justamente dali: do povo pagando ingresso, empurrando o time e fazendo o Santa Cruz gigante, mesmo na última divisão nacional.
Tudo isso precisa ser dito antes de qualquer crítica. Afinal, não estamos falando de um clube falido e de arquibancadas vazias. Estamos falando de um clube que vive, apesar de todos os desmandos de gestões fracassadas, porque sua torcida nunca o abandonou.
O ACESSO NÃO PODE VIRAR PRIVILÉGIO
A nova campanha de sócios sinaliza algo perigoso: o afastamento do torcedor popular. Após ouvir a voz da torcida, a reformulação feita pelo clube segue elitista e excludente. Mesmo com um plano de entrada mais barato, o modelo obriga o sócio a pagar 50% do ingresso em todos os jogos. Na prática, quem frequenta o estádio com regularidade gastará mais do que deveria. Clubes como Bahia e Ceará protegem melhor seus planos populares.
A justificativa são os custos da Arena de Pernambuco? Essa desculpa é frágil. Jogar na Arena não pode ser o álibi para elitizar o Santa Cruz.
A exclusão fica ainda mais evidente quando o clube elimina o direito a dependentes. Um pai com três filhos pequenos (eu sou um bom exemplo) passa a ser obrigado a contratar quatro planos individuais, sendo três deles pagando metade do ingresso. A conta chega facilmente a R$ 230 mensais, sem incluir estacionamento, alimentação e camisa oficial.
Agora pare um pouco. Respire. Pense no torcedor da Geral. Aquele que entrava pelo Portão 11, o torcedor de periferia. Ele vai conseguir pagar?
Estamos falando de Série C do Brasileirão! Não é Libertadores, não é Série A, não é futebol europeu. “Ah, mas futebol é caro”, dizem alguns. “Não se faz time bom investindo pouco”, argumentam outros. Em 2025, subimos com uma folha de mais de R$ 1 milhão, na qual dois jogadores recebiam mais de R$ 300 mil somados. O torcedor chegou junto, fez sua parte, pagou ingresso caro mesmo quando não podia. Mas a conta não pode cair sempre no lado mais fraco. O torcedor não pode ser sempre penalizado.
O “MORRO VAI DESCER”, MAS PODE FICAR DO LADO DE FORA
O Santa Cruz sempre foi o clube do povo. Cresceu na periferia e construiu sua identidade na massa. A frase “o morro vai descer” não é marketing, não é modinha. É história, identidade e raiz.
Porém, com essa campanha, o morro não vai descer. E sabe o que é pior? Vai assistir de casa, nos bares, pela TV. Afinal, financeiramente é mais barato, ainda que seja mais triste. O Santa Cruz sem seu povo perde a alma. O jogador sente, o estádio sente, o clube sente.
Antes que tentem desqualificar esta carta: Sim, votei a favor da SAF. Sim, sei que futebol precisa de dinheiro. Afinal, passei mais de duas décadas como setorista de futebol e cobri o Trio de Ferro da capital pernambucana.
Mas também sei que o Santa Cruz nunca foi, nem poderá ser, um clube excludente. A essência coral não está nas cadeiras cativas; ela pulsa na arquibancada. Ela explode na massa que sacode o estádio cantando e sofrendo. É ela que sustenta o clube. Sem esse povo, o Santa Cruz deixa de ser o que é.
Temos orgulho de ser o maior movimento popular de Pernambuco, certo? E nenhum movimento popular sobrevive quando fecha a porta para o próprio povo.
Que a diretoria reveja. Que siga escutando e corrigindo. Arrecadar é importante, mas respeitar quem sempre bancou o clube é obrigatório.
Sem o povo, o Santa Cruz não é gigante. É só um escudo e três cores.
José Gustavo Silva
Jornalista, torcedor e sócio coral