Em reação a pedido de impeachment, Raquel Lyra apela para legado de retidão, mas não aborda suposta omissão na fiscalização de empresa do pai
Em um discurso carregado de emoção e defesa pessoal, a governadora Raquel Lyra (PSD) reagiu publicamente ao pedido de impeachment protocolado pelo deputado Romero Albuquerque (UB). Diante de uma plateia de prefeitos e lideranças políticas, nesta terça-feira (20), ela afirmou: “Não se mexe com a honra de uma pessoa honrada”. A fala, no entanto, evitou explicar o motivo pelo qual a Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI) – órgão do seu governo – não fiscalizou por três anos a Logo Caruaruense, empresa de propriedade do seu pai, o ex-governador João Lyra Neto.
O pedido de impeachment questiona justamente essa omissão, que permitiu a operação irregular da transportadora familiar. Na sexta-feira passada, Lyra Neto anunciou o encerramento das atividades da empresa, após 60 anos em funcionamento – medida que, para críticos, chegou tardiamente, apenas após a abertura da discussão na Assembleia Legislativa.
Raquel Lyra citou decisões judiciais favoráveis em processos anteriores e afirmou estar “tranquila” e focada no trabalho. “Não tenho nenhum receio de responder sobre tudo aquilo que diz respeito à minha vida e à minha gestão”, disse. No entanto, concentrou-se em defender sua biografia e acusou os adversários de tentarem criar uma “cortina de fumaça” com notícias falsas.
OPOSIÇÃO – Do outro lado, o deputado Romero Albuquerque rebateu que a questão não é sobre honra, mas sobre provas documentais. “Não se trata de ataque à honra, mas de indícios objetivos que sustentam o pedido”, afirmou. Ele questiona por que a governadora, que pede confiança com base no olhar, não esclarece publicamente a aparente falta de fiscalização sobre um negócio familiar – omissão que, na prática, beneficiou economicamente a empresa de seu pai.
Enquanto o discurso da governadora apela ao emocional e à história familiar, a oposição insiste em pautar o debate no conflito de interesses e na responsabilidade administrativa. O caso expõe a dificuldade de separar a esfera pessoal da pública quando laços familiares e interesses empresariais se entrelaçam à máquina do Estado. A narrativa de honra, agora, disputa espaço com a demanda por transparência sobre os três anos de transporte irregular – período em que o governo, por ação ou omissão, foi conivente com a operação da empresa da família Lyra.