A pesquisa Datafolha divulgada recentemente não apenas chacoalhou o tabuleiro político de Pernambuco, como expôs as vísceras de um sistema que insiste em ignorar a vontade popular quando ela se manifesta através de uma liderança feminina. Marília Arraes (Solidariedade) cravou 36% das intenções de voto para o Senado, superando o consolidado Humberto Costa (PT), que aparece com 24%.
Mais do que a liderança isolada, os números revelam um abismo entre Marília e uma legião de nomes masculinos que, apesar de pontuarem apenas entre 10% e 18%, como Miguel Coelho, Eduardo da Fonte e Silvio Costa Filho, são tratados pelas cúpulas partidárias com uma deferência que Marília, a campeã de votos até então, nunca recebe.
O desabafo, da ex-deputada federal nas redes sociais, é, portanto, um diagnóstico preciso do machismo institucional. Por que a mulher que lidera o cenário principal é questionada sobre sua viabilidade, enquanto homens que não chegam à metade de seu desempenho são incensados como “peças-chave” do jogo?
A resposta está no DNA autoritário e patriarcal que ainda oxigena nossas vidas e a política local. O sistema tenta, a todo custo, relegar Marília a um papel secundário, ignorando que o eleitor pernambucano já a colocou no topo da preferência. Goste dela ou não!
É impossível não notar a ironia política que envolve a atual situação.
Vamos pegar a governadora Raquel Lyra, por exemplo, como referência. Ela foi a primeira mulher eleita governadora de nosso estado. Por vários momentos utilizou, na maioria das vezes com razão, o discurso do combate à misoginia para se defender de ataques durante seu mandato. Entretanto, esse escudo ético parece evaporar quando a vítima, sua principal adversária política. O enfrentamento ao machismo não pode ser uma conveniência retórica e, sim, um princípio inegociável.
A liderança de Marília sobre um “mar de homens” que mal ultrapassam os dois dígitos é o maior argumento contra o açodamento daqueles que se julgam “candidatos de si mesmos”, como a própria candidata falou. Se as forças progressistas desejam realmente derrotar o retrocesso, precisam parar de tentar “complicar” a candidatura de quem detém a confiança do povo.
O teto de vidro que tentam impor a Marília é o mesmo que limita o avanço social de Pernambuco. É hora de reconhecer que a força de Marília não é uma concessão das elites, mas uma exigência das urnas que o marketing político não pode apagar. Este cenário exige uma reflexão profunda de todos os partidos que formam a Frente Popular.
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