O impeachment é um instrumento constitucional extremo. Existe para proteger a democracia de crimes de responsabilidade, não para servir de atalho eleitoral ou munição de disputa pessoal. A Câmara de Olinda deixou isso cristalino ao rejeitar, por unanimidade, cinco pedidos contra a prefeita Mirella Almeida, do PSD.
Unanimidade, em política, nunca é detalhe. É mensagem.
O plenário concluiu que não havia crime de responsabilidade. Sem crime, não há processo. O restante pertence ao campo da narrativa.
Quatro dos cinco pedidos partiram do ex-candidato Antônio Campos, que há anos tenta se viabilizar eleitoralmente na cidade. O arquivamento não foi apenas uma decisão jurídica. Foi também um termômetro político. Quando nem a oposição embarca, o isolamento deixa de ser hipótese e vira fato.
Impeachment não é panfleto
O Brasil conhece o custo da banalização desse instrumento. Transformar divergência política em infração jurídica corrói a institucionalidade e tensiona a democracia. Impeachment não é convertível em estratégia permanente de desgaste.
Em Olinda, vereadores de campos distintos optaram pela responsabilidade. O decano Biai, do Avante, afirmou que a Casa não poderia se curvar a disputas locais travestidas de denúncia.
Em outras palavras, a Câmara não é extensão de campanha.
Quando até a oposição diz não
O gesto mais eloquente veio da vereadora Eugênia Lima, do PT. Mesmo na oposição, votou contra os pedidos e criticou a banalização do impeachment.
Reconheceu problemas reais da cidade, como o lixo, e é saudável que reconheça. Mas fez a distinção essencial: crítica administrativa não é crime de responsabilidade. Sem essa linha divisória, qualquer divergência vira pretexto institucional.
Se até adversários políticos rejeitam a tese, a ofensiva perde lastro. E sem lastro, não há tração.
Estabilidade para um lado, desgaste para outro
Para Mirella Almeida, a decisão significa fôlego e estabilidade. Impeachment gera ruído, paralisa agenda e cria instabilidade artificial. A unanimidade retirou essa sombra do cenário imediato.
A prefeita reagiu defendendo a legalidade e criticando o uso politiqueiro do instrumento. Em seguida, reposicionou o debate na agenda concreta, Carnaval de Olinda, emprego, renda, cidade viva. Em política, sobreviver ao ataque é importante. Retomar a pauta é ainda mais.
Já para Antônio Campos, o episódio reforça um dilema antigo. Judicializar o embate pode produzir manchetes, mas não constrói maioria. E política, no fim das contas, é maioria.
Olinda tem problemas estruturais que exigem enfrentamento sério. A população quer solução para o lixo, mobilidade e serviços básicos. Não quer a Câmara convertida em palco de disputa recorrente.
Impeachment não é slogan nem método de campanha. Quando vira rotina, perde gravidade. E quem aposta todas as fichas nessa estratégia corre o risco de falar sozinho.
Na política, o isolamento raramente é proclamado. Ele se materializa. E, desta vez, foi unânime.