A tentativa de “despolitizar” o Carnaval por meio de uma cobertura asséptica e meramente técnica é um recurso recorrente de uma elite midiática que ainda teme a força das ruas. Durante o desfile da Acadêmicos de Niterói, o que se viu na tela da TV Globo não foi neutralidade, mas uma forma sofisticada de silenciamento.
Ao focar em “acabamento de fantasias” enquanto a Sapucaí encenava o golpe de 2016 e as feridas da pandemia, a emissora tentou apagar o conteúdo histórico de um enredo que é, essencialmente, um manifesto sobre a alma do Brasil.
Como observador da política há 25 anos, vejo nessa “neutralidade orientada” o mesmo desconforto que as oligarquias pernambucanas sempre demonstraram quando a trajetória de um retirante de Garanhuns desafiou a ordem estabelecida.
A história de Dona Lindu e as “13 noites e 13 dias” no pau-de-arara não é apenas folclore carnavalesco; é a crônica da migração e da ascensão de uma classe que a grande mídia prefere ver apenas como mão de obra, nunca como protagonista da História.
O contraste editorial foi gritante. Enquanto a homenagem a Ney Matogrosso recebeu contextualização profunda, a saga do “Operário do Brasil” foi tratada com uma distância mecânica, quase robótica. Ignorar a sátira explícita do ex-presidente como “Bozo” de tornozeleira, ou a representação das cruzes da Covid-19, é mais do que uma falha jornalística: é uma cumplicidade por omissão com a desinformação.
O Carnaval é o momento em que o povo escreve a história com os pés, mas a emissora parece ter tentado ler esse livro com os olhos fechados.
As redes sociais, felizmente, furaram a bolha. O público identificou o que os comentaristas temeram nomear: o golpe, o genocídio sanitário e a resiliência democrática. A Acadêmicos de Niterói cumpriu seu papel de vanguarda, provando que a esperança que surge do Mulungu é maior que qualquer diretriz de bastidor.
No fim, a tentativa de minimizar o enredo só reforçou sua importância. A política na avenida é o espelho de um país que não aceita mais o apagamento de suas conquistas sociais.