O Carnaval do Recife, nossa maior expressão de resistência e alegria, enfrenta um dilema ético que transborda os limites da festa. O episódio de desrespeito relatado pelo grupo Guerreiros do Passo no Galo da Madrugada não é apenas um incidente isolado de má educação; é o sintoma de uma visão de mundo que separa o “negócio do Carnaval” da “labuta da cultura”.
Fundado há 20 anos e recentemente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, mérito da articulação da vereadora Liana Cirne (PT), o Guerreiros do Passo é a face de Pernambuco que o mundo aplaudiu em Cannes, ao lado de Kleber Mendonça Filho. Ver esses artistas barrados com grosseria e arrogância no maior bloco do mundo é um tapa na face da nossa identidade.
A frase disparada por Guilherme Menezes: “a Prefeitura não manda no Galo” revela um perigoso sentimento de “dono da festa”. Ora, o Galo é um fenômeno porque se alimenta da tradição e do suor do povo, e não o contrário.
Quando o filho do presidente da agremiação trata artistas com rispidez, ele não está apenas exercendo um pequeno poder familiar; ele está desonrando a própria história do bloco. O Carnaval é, acima de tudo, trabalho. Cultura é trabalho.
Tratar operários da arte como intrusos em um espaço que deveria ser de celebração conjunta é a prova cabal de que o Galo, em seu gigantismo comercial, corre o risco de perder a alma que o frevo lhe deu.
E olhe que o fenômeno do Galo são os foliões, pessoas de todas as classes sociais, cores, religiões. A magia e o encanto não está nos trios e nem nos camarotes goumertizados e sim no asfalto. É lá onde as fantasias e os suores se misturam.
O desabafo de Eduardo Araújo é um grito de basta. Se o Galo da Madrugada se afasta dos valores de coletividade e acolhimento para se fechar em uma bolha de soberba aristocrática, ele deixa de ser o bloco do povo para ser apenas uma vitrine de marketing.
O desrespeito aos Guerreiros do Passo é o desrespeito a cada passista, músico e artesão que faz a engrenagem girar sob o sol do Sábado de Zé Pereira. Pernambuco não aceita coronelismo, nem mesmo o festivo. A cultura do passo é maior que qualquer camarote.
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Neste sábado, o grupo Guerreiros do Passo foi alvo de um grave episódio de desrespeito no @galodamadrugada. Nossa programação previa a participação em um cortejo junto ao trio oficial da Prefeitura do Recife, com concentração no camarote oficial do Galo e de sua diretoria. Seguindo a orientação recebida, chegamos cedo para aguardar a aproximação do trio que trazia a Orquestra Popular do Recife, com Almério e Flaira Ferro, antes mesmo da saída do primeiro trio elétrico.
Ao tentarmos acessar a entrada do camarote, fomos impedidos por Guilherme Menezes, filho do presidente da agremiação, sob a alegação de que não estávamos autorizados. Informamos que cumpríamos recomendação oficial repassada por André Brasileiro, mas fomos tratados de forma ríspida e grosseira. Em tom arrogante, foi dito que “a Prefeitura não manda no Galo” e que, se ele quisesse, “nem o próprio pai entraria ali”.
Guilherme, que se mostra emocionado em entrevistas e aparenta ser um “doce de pessoa” ao falar da agremiação, revelou-se mal-educado e estúpido. Fico imaginando como trata as pessoas e colaboradores longe dos holofotes.
Ninguém é obrigado a conhecer todos os artistas ou grupos culturais, mas todos têm o dever de tratar qualquer pessoa com respeito e dignidade — especialmente em um evento que se propõe a representar a cultura pernambucana. O Galo é um fenômeno de público, mas há tempos deixou de representar autenticamente o frevo. Atitudes como essa reforçam o distanciamento dos valores que sustentam o ritmo: coletividade, acolhimento e valorização dos artistas.
Os integrantes do Guerreiros do Passo não estavam ali para brincar, mas para cumprir agenda e honrar compromisso profissional. Carnaval é trabalho. Cultura é trabalho.
A grandeza de uma instituição cultural não se mede pela dimensão do seu evento, mas pela forma como trata quem constrói sua história. Não aceitamos desrespeito. Ao carnaval do Galo, jamais voltaremos!
Eduardo Araújo.
Fundador e diretor do grupo Guerreiros do Passo