O futebol, por décadas operado como um enclave do patriarcado mais tacanho, vive um momento de ruptura que muitos “donos da resenha” ainda não conseguiram processar. O recente episódio envolvendo o coletivo Coralinas, que há dez anos ocupa as arquibancadas com inteligência e resistência, é pedagógico sobre como a fragilidade masculina reage quando é convidada à reflexão básica sobre direitos humanos.
Ao lançar um simples “será?”, o grupo não mirou indivíduos, mas a estrutura que sustenta a violência de gênero e a LGBTfobia nos estádios. A resposta agressiva, manifestada em ataques coordenados para “mandar lavar prato” ou questionar a legitimidade técnica das integrantes, é o sintoma clássico de quem perdeu o monopólio da fala.
Tentar deslegitimar mulheres que possuem formação pela ONU, currículo acadêmico sólido e uma década de vivência de arquibancada é um atestado de ignorância. É o medo de aceitar que o futebol é um fenômeno social complexo, e não um território de impunidade para preconceitos.
O método da intimidação digital, a convocação de hordas para humilhar e silenciar vozes femininas, guarda semelhanças assustadoras com o modus operandi da extrema-direita que combatemos diariamente.
É o uso do anonimato ou de páginas de “humor” como ferramentas de cerceamento. No entanto, o feitiço virou contra o feiticeiro. Ao tentarem ridicularizar o coletivo acusando-o de “querer biscoito”, os agressores apenas catapultaram a pauta para o centro do debate público.
Como alguém que acompanha os bastidores da política e da cultura em Pernambuco há 25 anos, afirmo: a arquibancada não é mais um feudo privado. As Coralinas não estão ali pedindo licença; elas são sujeitos políticos que trazem para o esporte o que ele mais precisa: civilidade.
Enquanto agressores “tremem na base” e apagam posts sob o risco de responsabilização por CPF, elas permanecem firmes. A “resenha” agora tem donas, e elas não aceitam mais o lugar de submissão que o machismo tentou lhes reservar.
O jogo mudou e o placar é da democracia.
Leia o texto das Coralinas na íntegra
Um “será?” incomoda muita gente?
Somente porque convidamos todas as pessoas – todas, de todos os times, não direcionamos nosso posicionamento a nenhuma pesssoa específica ou a uma página sequer – à reflexão, sobre como a violência de gênero e trans/lgbtfobia é uma estrutura que não se inicia, e tampouco se encerra, nos casos de espancamento e morte, fizeram o que? Praticaram mais um pouco de suas violências.
Tentaram nos colocar no nosso “lugar”: lavar prato, roupa, cuidar da casa. E que é mesmo, pois não nos envergonha sermos adultas funcionais. Mas não somos isso, apenas.
Tentaram nos deslegitimar: “não trabalham, são desocupadas, não entendem de futebol, nem a campo vão”. Quando, na verdade, somos mães (e isso é um grande trabalho), somos profissionais, pesquisamos em universidades, publicamos, estudamos, fomos formadas pela ONU, dialogamos com todos os níveis de poder público institucionalizados, com tantas torcidas, e também estamos em campo, regularmente. Só o Coralinas existe na arquibancada há 10 anos, nós sabemos do que estamos falando, não somos levianas.
Tentam nos intimidar: uma página, assim como a pessoa responsável por ela (que parece ter tremido na base, já que se removeu como autor do post, mas os prints já haviam sido feitos, para responsabilização também do CPF), nos cita diretamente, direciona para uma de nossas componentes uma clara convocação – que culminou em uma invasão de pessoas dispostas a xingar, humilhar, reclamar e, repetimos mais uma vez, apenas porque foram convidadas à reflexão. Não se propõem ao pensamento e ao diálogo, apenas se defendem do que reiteradamente insistem em chamar de “resenha”. Mas os prints dessa graça toda estão aí. dessa tentativa de dizer o que devemos ou não devemos falar, como e onde devemos estar, de qual forma. Porque são essas pessoas que se acham detentoras do poder sobre o que nós devemos ser e agir.
“Querem biscoito? Estão sem assunto?” Sim. Queremos atenção para esse tema, para este assunto que queremos debater. E que bom que vocês nos deram e transformaram nosso post num viral, alcançando milhares de pessoas e se desdobrando em mais resultados para a pauta.