A suspensão de Carol Solberg pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB) é um anacronismo autoritário que envergonha o esporte mundial. Ao punir a atleta por comemorar a prisão de Jair Bolsonaro, um fato jurídico e histórico que encerra um dos capítulos mais sombrios da nossa democracia, a entidade não protege a “neutralidade esportiva”, mas sim a mordaça ideológica.
O uso do Artigo 8.3 para classificar como “conduta antiesportiva” uma manifestação de alívio democrático é uma interpretação elástica e perigosa, que serve apenas para blindar figuras que atentaram contra a vida e as instituições.
Carol Solberg já é uma veterana na resistência contra o silenciamento. No passado, enfrentou tribunais domésticos pelo “Fora, Bolsonaro” e saiu vitoriosa, reafirmando que o atleta não é um autômato desprovido de cidadania. Agora, a punição surge justamente quando o Brasil tenta cicatrizar as feridas deixadas pelo extremismo e pela desinformação.
Punir o grito de “Bolsonaro na cadeia” é, na prática, equiparar a defesa da justiça a um insulto vulgar. Onde estava o rigor dessa mesma federação quando o esporte foi usado como palanque para discursos de ódio ou propaganda de regimes autocráticos?
A ausência de Carol na etapa de João Pessoa é uma perda técnica para o circuito, mas um ganho simbólico para a sua trajetória. Enquanto adversárias somam pontos no ranking, Carol soma estatura histórica. O prejuízo esportivo é evidente, mas a tentativa de isolá-la apenas amplifica sua voz.
Para nós, que acompanhamos os bastidores da política e a resistência democrática, fica claro que a FIVB agiu sob o fantasma de uma “isenção” que nunca existiu. O esporte não é uma bolha estanque; ele pulsa com a sociedade.
Ao tentar varrer para debaixo do tapete de areia a queda de um líder que flertou com o autoritarismo, a federação internacional flerta com o mesmo obscurantismo que o Brasil, soberanamente, decidiu superar.
Carol Solberg não manchou o vôlei. Ela honrou a liberdade.