Quero enfatizar logo: Não foi desabafo. Não foi “calor do momento”. Foi machismo!
O futebol brasileiro, esse microcosmo das nossas maiores virtudes e dos nossos piores vícios, assistiu no sábado (21), a mais um espetáculo deprimente de misoginia fardada de chuteiras. A declaração do zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, ao afirmar que a Federação Paulista “não deveria colocar uma mulher” em jogos decisivos, é um soco no estômago de todos, sim todos, e um insulto à trajetória de Daiane Muniz ou de qualquer outra árbitra.
E isso não é só pelo fato dela ser uma das profissionais mais qualificadas do quadro da FIFA, cuja competência é medida por critérios técnicos rigorosos, e não pela biologia.
O argumento de que o erro, real ou suposto, de uma árbitra decorre do seu gênero é a essência do preconceito estrutural. Quando um árbitro homem comete uma falha grotesca (o que é muito mais corriqueiro no Futebol), questiona-se sua capacidade, sua visão ou sua idoneidade. Jamais se questiona o fato dele ser homem ou o direito de todos os homens de apitarem.
Ao mirar em Daiane, Gustavo Marques não criticou uma marcação de campo; ele tentou reestabelecer o futebol como um “clube do Bolinha” exclusivo, onde a competência feminina é sempre tratada como uma concessão frágil, pronta para ser cassada ao primeiro revés do placar.
A desculpa protocolar na zona mista, ancorada no clássico e vazio “tenho mãe e esposa”, é o refúgio recorrente daqueles que são flagrados reproduzindo a barbárie. O “nervosismo” não cria preconceitos; ele apenas os desinibe.
O machismo no esporte é um braço do conservadorismo que tenta domesticar a presença feminina em todos os espaços de poder.
Daiane Muniz, ou qualquer outra profissional feminina, não precisa de “perdão” por ser mulher; ela exige respeito pela sua autoridade conquistada no apito. A Federação Paulista e os órgãos de controle devem agir com rigor pedagógico.
As notas oficiais soam frias e como consolo. Porém, atitudes como a de Gustavo Marques não podem ser varridas para debaixo do gramado sob o pretexto da “cabeça quente”.
Não se trata de patrulha moral. Trata-se de responsabilidade pública. Jogadores são figuras de influência, e suas falas moldam percepções. Quando um profissional afirma que uma mulher não deveria apitar um grande jogo, ele não atinge apenas uma árbitra e, sim, todas as mulheres que lutam por legitimidade em espaços historicamente fechados.
E aqui entra o torcedor. É nas arquibancadas, nas redes sociais e nas conversas de bar que o futebol também se constrói. Cada vez que uma fala como essa é relativizada com um “foi só nervosismo” ou “é mimimi”, reforça-se o ciclo que mantém mulheres sob suspeita permanente.
Se queremos um futebol mais justo, competitivo e moderno, não podemos aceitar que o gênero ainda seja usado como argumento para invalidar competência.
Respeito não é detalhe. É regra do jogo.